Crítica | Saltburn - Um Thriller Psicológico Que Deixa o Público Entre o Fascínio e a Confusão
- Gus Acioli
- 9 de jan.
- 4 min de leitura

Saltburn oferece uma trama envolvente, mas que ao mesmo tempo é difícil de categorizar. A premissa de um estudante universitário que se envolve com um amigo de classe alta e se vê absorvido em seu mundo decadente tem potencial para explorar temas interessantes de classe social, obsessão e identidade.
Porém, em alguns momentos, a história parece se perder, deixando o público mais confuso do que envolvido. Embora não seja previsível, a narrativa pode ser uma experiência desafiadora, especialmente para quem busca um filme mais linear e direto.
O desenvolvimento de Oliver Quick (Barry Keoghan) é um dos pontos mais fortes do filme. Keoghan entrega uma atuação impressionante, conseguindo equilibrar vulnerabilidade e obsessão de uma forma intrigante. Sua entrega ao papel é inegável, e a direção de Emerald Fennell permite que ele explore diferentes camadas do personagem. No entanto, outros personagens, como Felix Catton (Jacob Elordi), são mais unidimensionais, e a relação entre eles se torna cada vez mais difícil de compreender, o que gera uma sensação de distanciamento.

Saltburn parece explorar temas de classe social, obsessão, identidade e as complexas dinâmicas entre pessoas de diferentes mundos. No entanto, a forma como esses temas são abordados acaba sendo um pouco dispersa, com momentos em que o filme parece perder o foco e se tornar um enigma sem uma resolução clara. A mensagem, embora interessante, não é totalmente bem resolvida.
O filme possui alguns momentos memoráveis, especialmente nas cenas em que a obsessão de Oliver por Felix começa a se intensificar. A tensão psicológica e os pequenos detalhes visuais ajudam a construir uma atmosfera de desconforto, mas esses momentos, embora marcantes, são um tanto escassos, e o filme acaba perdendo força em sua parte final.
O ritmo de Saltburn é um dos maiores desafios. Em certos momentos, a narrativa se arrasta e a tensão é difícil de manter, fazendo com que o filme perca um pouco da sua força emocional. A progressão da história pode parecer arrastada, especialmente porque o filme se mantém em uma área ambígua, onde não há uma sensação clara de onde a trama está indo.
Emerald Fennell, conhecida por seu trabalho em Bela Vingança, possui uma direção que é ousada e confiante, mas por vezes difícil de se conectar. Sua habilidade em criar uma atmosfera de desconforto psicológico é notável, mas ela também deixa o filme com uma sensação de frieza, que pode afastar o público. A direção se destaca em momentos pontuais, mas a falta de uma linha narrativa mais clara compromete a experiência geral.

A fotografia de Saltburn é visualmente interessante, mas não chega a ser arrebatadora. A paleta de cores, com tons sombrios e frios, ajuda a transmitir a sensação de desconforto e distanciamento, mas o estilo visual não é o suficiente para compensar as falhas narrativas. O uso de ângulos e close-ups funciona para intensificar a tensão em alguns momentos, mas no geral, a fotografia não se destaca como um grande ponto positivo do filme.
A trilha sonora de Saltburn tem um papel importante ao criar a atmosfera tensa do filme. Embora não seja algo que fique na memória, a música complementa bem o tom psicológico do filme. Ela ajuda a manter o clima de desconforto e inquietação, mas não chega a ser marcante ou inesquecível.
O filme não faz uso extensivo de efeitos especiais, já que a maior parte de sua tensão vem da interação entre os personagens e da criação de um ambiente psicológico. Quando os efeitos são usados, eles servem mais para criar uma sensação de surrealismo e inquietação do que para efeitos visuais grandiosos.

Barry Keoghan brilha como Oliver, entregando uma performance envolvente e multifacetada. Sua habilidade de capturar a obsessão e a vulnerabilidade de seu personagem é uma das maiores qualidades do filme. Jacob Elordi, por outro lado, embora competente, não entrega uma atuação tão complexa quanto a de Keoghan, com seu Felix sendo mais superficial. Rosamund Pike, como sempre, é uma adição sólida ao elenco, mas seu papel não é tão explorado quanto poderia ser.
O design de produção em Saltburn é eficiente em criar o ambiente da casa de Felix, que parece ao mesmo tempo luxuosa e opressiva. O cenário contribui para o sentimento de desconforto que permeia o filme. No entanto, o design não é particularmente inovador ou impressionante, mas cumpre bem o seu papel de transmitir a tensão do enredo.

Saltburn é um filme com potencial, mas que falha em manter uma coesão narrativa que satisfaça o espectador. A direção e as atuações são sólidas, mas a história, em alguns momentos, se torna confusa e difícil de se envolver. Para alguns, isso pode ser um atrativo, mas para outros, será uma decepção.
Recomendaria Saltburn para aqueles que apreciam thrillers psicológicos e dramas com personagens complexos, mas com a ressalva de que o filme não é para todos. Seu ritmo lento e a ambiguidade de sua trama podem afastar aqueles que buscam um filme mais direto e claro.
A atuação de Barry Keoghan é o maior ponto forte do filme, assim como a direção de Fennell, que consegue criar uma atmosfera de desconforto psicológico. O filme também se destaca pela criação de uma relação tensa entre os personagens principais, que, embora difícil de acompanhar, é intrigante.

A falta de clareza na trama e o ritmo irregular são pontos a melhorar. A história poderia ser mais focada e menos ambígua, e o filme poderia se beneficiar de uma construção narrativa mais envolvente.
Em uma escala de 1 a 10, Saltburn fica com uma nota 6. É um filme com boas atuações e uma direção interessante, mas que falha em entregar uma experiência consistente e satisfatória. Apesar de momentos marcantes, o filme é difícil de se revisitar e não consegue manter a tensão até o fim.
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